Revista de Humanidades e Ciências Sociais

Al Irfan é uma revista científica de periodicidade anual fundada em 2014 no IEHL. Publica trabalhos de caráter disciplinar, pluridisciplinar e interdisciplinar, dando ênfase à exploração dos mundos hispânicos e lusófonosassim como as suasinterseções, nassuasdimensões históricas, culturais, sociológicas, políticas e económicas.

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A diversidade globaléctica da língua portuguesa e a literatura-mundo

O lugar das literaturas africanas

Luís Kandjimbo
Universidade Gregório Semedo, Angola

Introdução

A tematização da diversidade cultural no sistema das relações internacionais intensificou-se a partir de 2001 com a aprovação da Declaração Universal da UNESCO. Seguiu-se a Convenção da UNESCO sobre a Protecção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais de 2005. Mas, a consagração do princípio do multilinguismo que data da década de 90 do século passado, constitui a fonte donde emana o conceito de língua global cuja semântica anda associada aos conceitos de poder ao nível das relações diplomáticas e de potência nas instituições económicas e financeiras mundiais. O barómetro Calvet das línguas do mundo classifica o português igualmente pela sua importância relativa: situado em 6º lugar (precedida pelo hindi e seguida pelo russo), segundo critério do número de locutores; em 4º lugar, tendo em conta o seu estatuto oficial em 9 países (precedido pelo árabe e seguido pelo alemão); em 10º lugar, de acordo com o número de artigos publicados no Wikipedia (precedido pelo japonês e seguido pelo sueco); em 16º lugar pelo número de traduções enquanto língua-fonte (precedida pelo húngaro e seguido pelo hebreu). Na classificação geral o português ocupa o 9º lugar. No entanto, o conhecimento de tais indicadores não parece produzir consequências no comportamento colectivo da CPLP, enquanto organização internacional.

Durante quatro anos (2011-2015), desempenhei o cargo de Diretor para Ação Cultural e Língua Portuguesa no Secretariado Executivo da CPLP, desenvolvendo ações de coordenação para a implementação dos instrumentos de cooperação multilateral adotados pelos Estados membros. Já na década precedente, (2002-2008), como Conselheiro Cultural da Embaixada de Angola em Portugal, tive a responsabilidade de acompanhar as questões relativas à cooperação cultural bilateral e multilateral. Tal experiência diplomática permitiu compreender os desafios com que se confronta a CPLP, no que diz respeito à definição de uma acção concertada de promoção e difusão da língua portuguesa. A leitura dos dois planos estratégicos da CPLP sobre esta matéria, nomeadamente, o Plano de Ação de Brasília de 2010 e o Plano de Ação de Lisboa de 2014, não deixa dúvidas a este respeito. É observável a dissonância entre as manifestações de interesse dos Estados membros ao nível desta organização intergovernamental e as ações que são desenvolvidas no plano interno. Ou seja, cada Estado membro desenvolve uma política da língua, prosseguindo os seus próprios interesses. E, no plano interno, as instituições de ensino e investigação nem sempre são chamadas a intervir, tal como é recomendável. Por essa razão, o debate sobre o Português, enquanto língua global, mobiliza de forma desigual as comunidades académicas da CPLP. A perspetiva que tem vindo a impulsionar as intervenções no debate assenta sobretudo na dimensão económica da língua portuguesa, perdendo-se de vista a dimensão cultural e o carácter instrumental das suas variedades nacionais.

A minha comunicação focaliza a reflexão em torno das manifestações de um certo relativismo cultural que, inspirado por uma realidade linguística aparentemente homogénea, trata o português como sendo uma língua materna universal. Por essa razão, não hesito em trazer à liça a ideia de diversidade cultural e linguística através da operacionalização do conceito de literatura-mundo e outras questões correlatas.

Literatura-mundo e diversidade cultural na CPLP

Em 2011, foi apresentado o Projeto da Antologia da Literatura-Mundo em português, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, partindo do postulado segundo o qual o objetivo é åcontribuir para a construção da Literatura-Mundo (Weltliteratur, WorldLiterature) em português e em Portugalò. Quanto a nós, tal proposta revelava uma visão relativa ao estatuto da língua portuguesa e das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, já denunciada em várias ocasiões por diversos comparatistas. Trata-se de um preconceito glotocêntrico e glotocida que se exprime por via da exclusão de línguas e culturas diferentes das ocidentais. É que a existência da Literatura-Mundo não pode ter a sua única manifestação através das línguas europeias. Neste caso, a Literatura-Mundo não é veiculada apenas numa língua, na medida em que as variedades nacionais da Língua Portuguesa revelam a existência de outras culturas, pois a diversidade linguística e cultural é a realidade dominante na maioria dos países de língua portuguesa.

De um modo geral, os críticos e investigadores que se dedicam ao estudo das Literaturas Africanas reconhecem a ineficácia dos instrumentos com os quais se opera no Ocidente. Dois autores portugueses que se dedicam à investigação e ao ensino das Literaturas Africanas de Língua                  Portuguesa, dão o tom relativamente ao reconhecimento dessa ineficácia. Para Salvato Trigo, o texto literário angolano e outros, levantam o åproblema da alteridade ético-estética que permite a essas literaturas a construção de universos simbólicos e referenciais cuja leitura exige de nós um aprofundado conhecimento antropológico-cultural do mundo africano [ì]ò (Trigo, 1986?, p.73).

No mesmo sentido, ergue-se Pires Laranjeira, ao defender um ponto de vista que revela a necessidade de compreender que as disciplinas de Literaturas Africanas têm åproblemas específicos que não encontram nas de literatura portuguesa ou mesmo francesa[ì] por estarem relacionadas com países cuja realidade é, no mínimo que se possa dizer, um pouco mais familiar aos alunosò (Laranjeira, 1995). Reconhecendo a existência de outros problemas de fundo, Pires Laranjeira conclui que o interesse das Literaturas Africanas enquanto disciplina, não se esgota na literatura, sendo necessário convocar outras disciplinas, tais como a antropologia, a história de África, as metafísicas tradicionais bantu, a sociologia, a história comparada das religiões, a história das instituições políticas, a história das mentalidades, a mitocrítica. Em nota de rodapé do capítulo consagrado à literatura como instituição, em O Conhecimento da Literatura, Carlos Reis denuncia a existência, na comunidade académica portuguesa, de åuma mal disfarçada resistência contra o reconhecimento do significado próprio das chamadas åLiteraturas Africanas de Expressão Portuguesaò; fruto, em parte, de reminiscências ideológicas de raiz colonialista, essa resistência funda-se também na leitura de tais literaturas à luz do cânone literário português e europeu, leitura que, desse ponto de vista, é naturalmente desqualificadoraò (Reis, 1997, p. 77).

Ao analisar o lugar de África e dos africanos no curriculum do ensino básico e ensino secundário em Portugal, já na primeira década do século XXI, Lola Geraldes Xavier considera que o continente africano é menosprezado, åno sentido em que não lhe é dado espaço no ensino formalò, devido ao predomínio da visão eurocêntrica (Geraldes, 2012, p. 233-246).

Curiosamente, no subsistema do ensino superior português a Literatura Angolana é hoje uma disciplina com estatuto epistemológico consolidado.

Semelhantes questões são referidas a respeito do ensino da literatura brasileira em Portugal por Fernando Cristóvão que, lamentando o facto de os estudos brasileiros nas universidades portuguesas existirem há mais de cinquenta anos,verifica-se ainda hoje um mau conhecimento recíproco das respectivas literaturas no Brasil e em Portugal.

A constatação feita por Fernando Cristóvão levou-o a sugerir o critério geral da reciprocidade proporcionada para todas as Literaturas de Língua Portuguesa (Cristóvão, 1985, p. 114-123). O que significaria garantir uma presença dignificante da Literatura Brasileira e das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa em Portugal, devendo corresponder a presenças igualmente dignificantes da Literatura Portuguesa no Brasil e nas jovens nações de África.

Todas estas constatações, no que a Portugal diz respeito, verificam-se décadas após a introdução em 1975 da disciplina de åLiteraturas Africanas de Expressão Portuguesaò e da sua institucionalização em 1978, através dos Decreto-Lei nº 53/78 de 31 de Maio a que se seguiu o Decreto-lei nº 75/84 de 27 de Novembro.

Discurso crítico, leituras e cânones alternativos

O reconhecimento da ineficácia dos instrumentos de leitura é observável igualmente em contextos institucionais não africanos. Thomas Hale, professor de Literaturas Africanas nos Estados Unidos, observou que o facto de o termo åhumanidadesò ser de origem europeia, poucos colegas seus das disciplinas mais tradicionais pensaram algum dia em interrogar-se acerca de a África poder ser fonte do tipo de valores que se encontram nos clássicos ocidentais (Hale, 1990, p. 91-100). Hale acrescenta: åWe need to globalize the notion of humanities to include literatures by any peopleò. Segundo Elizabeth Gunner, na Grã-Bretanha o cânone africano desenvolve-se num contexto que combina antipatia e apatia em relação à noção literatura africana em língua inglesa[1]. Escrevendo sobre os padrões estéticos com que o discurso crítico ocidental opera diante das literaturas africanas de língua inglesa, Edward Wright apontava, entre outras, duas questões. A primeira, traduz-se na interrogação acerca da aplicabilidade de uma teoria crítica geral a culturas totalmente distintas nas suas origens daquelas que são a fonte material da teoria. A segunda, relaciona-se como público leitor e a intencionalidade do autor, pois sem prejuízo do facto de as palavras e a sintaxe obedecerem às mesmas regras, todavia as culturas de referência são diferentes (Wright, 1978, p. 1-22). As semelhantes conclusões chega igualmente Peter Young, quando considera que uma adequada crítica das Literaturas Africanas, como deve ser para qualquer literatura, pressupõe o estabelecimento e aceitação de um conjunto de critérios pré-críticos mediando o escritor e o leitor (Young, 1978, p. 23-50).

Ora, apesar das experiências históricas consagradas pelos contactos estabelecidos entre os oito países de Língua Portuguesa, deve ser admitido que qualquer estratégia de difusão das Literaturas em Língua Portuguesa, no âmbito externo à CPLP em mesmo em homenagem a um conhecimento recíproco sólido dos países de língua portuguesa, pressupõe antes de mais a introdução nos respectivos sistemas de ensino de outras disciplinas, operando-se numa lógica de interdisciplinaridade, tendo em atenção, por exemplo, a aludida mal isfarçada resistência portuguesa. Fácil é identificar as razões que podem aqui legitimar a paridade e a reciprocidade como princípios orientadores. É que não podemos perder de vista o peso da História e das representações sociais e colectivas. Tal como diz Edward Said, åvivemos num mundo que não é somente feito de mercadorias mas gualmente de representações, e as representações–a sua produção, a sua circulação, a sua história e a sua interpretação- são a matéria prima da culturaò (Said, 2000, p. 104). E isso é evidente particularmente na literatura portuguesa, onde abundam diversas obras impregnadas pelas imagens da visão imperial e do colonialismo português, avultando as negadoras do Outro Africano (angolano, caboverduano, guineense, moçambicano, santomense) (Seixo, Abreu, Moutinho, eds., 2000). Por outras palavras, sobrevivendo o colonialismo através das suas sequelas, aos escritores, investigadores, professores que habitam o espaço da CPLP, impõe-se um grande esforço de exorcização dos fantasmas que ainda resistem à morte.

Portanto, as estratégias a implementar pela CPLP e a difusão das Literaturas de Língua portuguesa em particular, deverão assentar numa vigilância epistemológica e obedecera uma política cultural multilateral que parta de uma sólida base de conhecimento comum das realidades dos Estados membros, sem hegemonias e hierarquias de qualquer outro tipo. Para tal deverão ser tidas em conta as políticas culturais de cada um dos países, no contexto das regiões geopolíticas em que se integram, pois o âmbito externo à CPLP em África, por exemplo, é constituído por países de língua oficial francesa e inglesa. A difusão das Literaturas de Língua Portuguesa impõe uma equação: a equação entre o lugar geográfico, os textos, a língua e o conhecimento. Está aí subjacente a ideia de que o sucesso da difusão e do ensino num contexto externo à CPLP dependerá em grande medida do volume de conhecimentos produzidos em cada um dos países e susceptíveis de serem exportados.

A ausência das Literaturas Africanas no espetro semântico da åliteratura-mundoò e da årepública mundial das letrasò suscita o questionamento dos paradigmas dominantes veiculados através dos debates europeus e anglo-americanos em que tomam parte autores como Cláudio Guillén, Gayatri Spivak, Pascale Casanova e outros. Por essa razão, faz-se apelo a um comparatismo literário renovado que inscreva no mapa as Literaturas Africanas e suas singularidades, recorrendo a uma interdisciplinaridade específica.

Na década de 80 do século XX, Albert Gérard, o reputado especialista belga de Literaturas Africanas e professor de Literatura Comparada da Universidade de Liège, publicou dois textos cujos títulos são úteis para o presente diagnóstico (Gérard, 1986, p. 1239-1257; 1990, p. 159-169). Definido que estava o campo de uma nova disciplina académica, Albert Gérard denunciava a inexistência de estudos sobre Literaturas Africanas nos espaços de legitimação académica na Europa e Estados Unidos da América, apesar da circunstancial ausência de académicos africanos e hegemonia de investigadores não-africanos. Para Albert Gérard já se desenhava uma nova fronteira da Literatura Comparada a partir de África[2]. Por sua vez Stephen Arnold considerava que entre 1976 e 1980 as Literaturas Africanas nos Estados Unidos da América tinham alcançado o estatuto de disciplina. Ora, estamos em presença de um exemplo apenas, na medida em que as dinâmicas europeias e norte-americanas não afastam a necessidade de conhecer os processos de desenvolvimento da disciplina em outras partes do mundo. Permitem, no entanto, compreender a tipicidade da institucionalização da disciplina naqueles espaços epistémicos. Portanto, justifica-se assim que se possa falar de uma assimetria entre as fases em que se analisa a periodização dos Estudos Literários Africanos. Nas Literaturas Africanas a transição da situação de indisciplina ou não-disciplina ao estatuto de disciplina não decorre da mesma forma nos vários espaços epistémicos não-africanos. Isso mesmo é-nos dado a ver pela história institucional do ensino das Literaturas Africanas de que o processo de denominação é um segmento importante. A indefinição do estatuto disciplinar das Literaturas Africanas era a consequência de disputas observadas no campo científico dos Estudos Africanos. A este propósito, V.Y. Mudimbe faz o seguinte comentário: åOne could think that African literary criticism grew up not so much as a necessity, nor as an original project within the framework of a scholarly tradition, which interrogates the massiveness of discourses, but rather as a consequence of a process of inventing and organising African Literatureò (1985, p. 7). Para Mudimbe as Literaturas Africanas enquanto objecto de estudo e investigação constituem um produto da invenção ocidental.

Para uma crítica da Literatura Comparada

Apesar da diversidade observável, as Literaturas Africanas correspondem à configuração de uma identidade de culturas e de valores, substrato da sua universalidade cujo teste de consistência em primeira instância ocorre no interior do continente africano. Subjazem aí os argumentos de natureza filosófica que permitem explicar a legitmidade do recurso à denominação coletiva no singular, à semelhança do que acontece com a filosofia africana. Neste sentido, a disciplinaridade das literaturas nacionais africanas pode contar com outros fundamentos ancorados à dialética do uno e do múltiplo, para lá de critérios como a geografia e o fenótipo que a prática tornou aparentemente irredutível. Por conseguinte, a hipótese de marginalização a que se refere Jacques Chevrier num dos capítulos do Compêndio de Literatura Comparada (Chévrier, p. 229-261) é um fenómeno exógeno às dinâmicas que pulsam nas diversas literaturas nacionais em África. Na verdade, trata-se de um problema suscitado pelo debate anglo-americano sobre o multiculturalismo que nas décadas de 80 e 90 abalou a Literatura Comparada e seus métodos radicalmente eurocêntricos. No relatório da Associação Americana de Literatura Comparada de 1995 (The Bernheimer Report), lê-se:

The space of comparison today involves comparisons between artistic productions usually studied by different disciplines; between various cultural constructions of those disciplines; between cultural traditions, both high and popular, and those of non-Western cultures; between the pre- and postcontact cultural productions of colonized peoples [ì]

These ways of contextualizing literature in the expended fields of discourse, culture, ideology, race, and gender are so different from the old models of literary study according to authors, nations, periods, and genres that the term åliteratureò may no longer adequately describe our object of study (Bernheimer, 1995, p. 41-42)[3].

Ao comentar o referido relatório, Gayatri Spivak identifica as limitações dominantes no campo da Literatura Comparada no mundo académico norte-americano cujas origens a situam no mesmo contexto genético dos chamados area studies, isto é, a ressaca da Segunda Guerrra Mundial, início da Guerra Fria e a chegada massiva de intelectuais europeus aos Estados Unidos da América, fugindo aos regimes totalitários da Europa do Leste. Data dessa época a consagração das línguas hegemónicas ocidentais no campo disciplinar. O que Spivak vem propor é o abandono da sofisticada tradição linguística da Literatura Comparada, exigindo-se a introdução de outras línguas:

In the field of literature, we need to move from Anglophony, Lusophony, Teutophony, Francophony, et cetera. We must take the languages of the Southern Hemisphere as ative cultural media rather than as objects of cultural study by the sanctioned ignorance of the metropolitan migrant. We cannot dictate a model for this from the offices of the American Comparative Literature Association. We can, however, qualify ourselves and our students to attend upon this as it happens elsewhereò (Spivak, 2003, p. 9).

Embora a Literatura Comparada, segundo Claudio Guillén, possa ser definida como ådomínio de investigação literária que se ocupa do estudo sistemático de conjuntos supranacionais consistindo no exame das literaturas do ponto de vista internacional, pois a sua identidade não depende apenas da atitude ou da postura do observadorò (Guillén, 2005, p. 27), subsiste o espetro das tensões entre o uno e o múltiplo ou diverso, podendo o local significar, numa lógica de hegemonia linguística, a influência ou penetração de uma literatura nacional no espaço de outras literaturas consideradas periféricas como o demonstra Pascale Casanova. Ora, o uso dos conceitos de supranacionalidade e internacionalidade com que trabalha Claudio Guillén, ambos derivados, não anula a posição central do conceito de nação herdado da tradição romântica (herderiana) europeia. Para Claudio Guillén a internacionalidade ou relações literárias internacionais (Guillén, 2005, p. 282) na Literatura Comparada distinguem-se do estudo das influências internacionais (Guillén, 1971, p. 17-68), pois este não é o estudo das relações entre as nações ou nacionalidade, mas entre umas línguas e outras (2005, p. 283). A ambiguidade perpassa a Literatura Comparada, na medida em que persiste a perspetiva evolucionista da antropologia clássica no que ao Outro diz respeito. Ao analisar o espaço da årepública mundial das letrasò, à luz da teoria dos campos de Pierre Bourdieu, Pascale Casanova identifica a estrutura hierárquica de um universo literário mundial centrado na Europa como objeto de estudo. Estabelece um åmeridiano de Greenwhichò que padroniza a temporalidade literária. Nesse universo verifica-se uma homologia entre åa estrutura do campo nacional e o campo literário internacionalò.

La position de chaque espace national dans la structure mondiale dépend de sa proximité à l’un des deus pôles, c’est-à-dire de son volume de capital, c’est-à-dire de son autonomie relative, c’est-à-dire de son ancienneté [ì] L’homologie entre l’espace littéraire international et chaque espace national apparaît et s’unifie sur le modèle et Grâce aux instances de consécration spécifiques qui permettent aux écrivains internationaux de légitimer leur position au plan national (Casanova, 1999, p. 164).

Na argumentação de Pascale Casanova admite-se a existência de uma geopolítica das relações literárias internacionais. Na årepública mundial das letrasò opera-se com uma dominação política através das línguas. Não sendo a língua um instrumento neutro, ao invés, mantém dependências políticas. Assim, a dominação política é exercida sob a forma linguística, implicando por isso uma dependência literária.Para Pascale Casanova as línguas europeias como fator de potência suscitam uma categorização dos fenómenos subjacentes com um forte acento etnocêntrico num exercício eufemístico que legitima a marginalização ou periferização das åpequenas literaturasò como as Literaturas Africanas escritas em línguas europeias. A qualificação ambígua das literaturas nacionais em ågrandesò e åpequenasò é um ato arbitrário que revela apenas o poder de definir e avaliar de quem o pratica.Trata-se de uma åuniversalização por denegação da diferençaò, isto é, ação das instâncias de consagração que reduzem as obras literárias estrangeiras às suas próprias categorias da perceção constituídas em normas universais, ignorando os seus contextos de origem (op.cit., p. 226).

Albert Gérard compreendera com particular vigor os efeitos potenciais que, no plano metodológico, as Literaturas Africanas traziam ao universo da Literatura Comparada, quando, na comunicação à 9ª conferência da Associação Internacional de Literatura Comparada realizada em Innsbruck (1979), identificava as linhas de pesquisa que podiam ser desenvolvidas para uma melhor compreensão das Literaturas Africanas: relações intra-africanas entre literaturas em línguas europeias; a influência da tradição literária ocidental; relações entre as Literaturas Africanas e outras literaturas da Ásia, Caraíbas e América Latina. Tratava-se de novos problemas que fazem do continente africano o espaço analítico de novas orientações teóricas entre as quais avulta o princípio da irredutibilidade das literaturas nacionais em África à sua denominação coletiva. Para Albert Gérard a afirmação das Literaturas Africanas não era simplesmente um problema de geopolítica das línguas europeias[4].

The emergence overseas of an enormous body of creative writing in European languages, produced by peoples with cultures and traditions that are utterly different from those of Europe and of the European diaspora gives this question a new dimension. For the ative, wholesale intrusion of a large number of new Asian and African states on the great theatre of world politics and world literature undoubtedly lends added urgency to a second aspect which has hitherto remained sadly neglected. [ì] But what used to be exceptional in the world that vanished in the middle of our century – the national, yet polyethnic and multilingual, state – has become the rule in the world, where Africa is bound to play an increasing role (Gérard,1990, p. 72).

Chegara a hora de África. As comunidades de especialistas das Literaturas Africanas reconheciam a necessidade de abandonar a perspetiva monista das literaturas nacionais no que resulta do conceito de Estado-nação, ou seja, o conceito que ignora o pluralismo jurídico, linguístico e cultural, dando primazia a unidade linguística dos Estados, de acordo com o modelo centralizador do Estado jacobino. As literaturas orais africanas provavam a existência de um património transnacional ou supranacional, além de revelar uma tradição literária antiga de comunidades étnicas cujo território transcende as fronteiras do Estado moderno, não coincidindo com os limites físicos do espaço onde são observáveis traços distintivos da identidade coletiva das populações que aí habitam. A ineficácia do paradigma nacional pode ser posto em causa quando se procura determinar o lugar das literaturas orais no campo institucional dos Estudos Literários Africanos, na medida em que a aplicação desse paradigma na abordagem das Literaturas Africanas constitui uma consequência do processo de invenção cujos agentes epistémicos são europeus e americanos. Por outro lado, se os princípios que estruturam a disciplinaridade das Literaturas Africanas emanam do seu caráter supranacional, não se compreende que na Europa e na América tivessem alcançado o estatuto disciplinar por força de uma teleologia holística tributária da lógica de funcionamento dos area studies que ignora a sua multiplicidade e o seu pluralismo. A investigação e o ensino das Literaturas Africanas continua a ser realizado com base na possibilidade de constituírem um todo cujo conhecimento pode ser alcançado através do estudo de uma das suas partes. Portanto, o desafio reside exatamente na determinação das fronteiras epistemológicas entre as literaturas nacionais nas suas singularidades, comportando as literaturas orais, as literaturas escritas em línguas vernáculas e as literaturas escritas em línguas europeias que, à luz dos critérios e métodos da Literatura Comparada, podem ser abordadas sob perspetivas tão diversas (Derive, 2001, p. 87-111)[5]. Avaliando o estado atual da Literatura Comparada não nos parece que dela tenham saído relevantes contribuições para o avanço dos Estudos Literários Africanos. Neste sentido, os argumentos de Jacques Chevrier são contraditórios, ao situar-se num plano em que opera com a ideia de um território analítico autónomo do espaço epistémico africano, admitindo que para o reconhecimento disciplinar das Literaturas Africanas muito terá contribuído a Literatura Comparada através das tradicionais instâncias de legitimação. Ora, no capítulo consagrado às Literaturas Africanas num compêndio de Literatura Comparada, Jacques Chevrier procede ao arrolamento dos problemas labirínticos com que se debatem os comparatistas europeus, sublinhando o cariz eurocêntrico que domina a disciplina. Não é rigorosamente verdadeira a afirmação segundo a qual åa atitude comparatista terá permitido simultaneamente delimitar os pontos de convergência entre culturas africanas e cultura ocidental, e sublinhar a irredutível singularidade das produções literárias africanasò (Brunel, Chervel, 2004, p. 229-261). Se assim fosse, Chevrier não apresentaria alguns obstáculos epistemológicos que ainda subsistem:

Aparentemente chegou a hora de alargar e ultrapassar o campo de relações euro-africanas, já bem inventariado, em proveito de aproximações talvez mais pontuais, centradas sobretudo sobre a própria África e consistindo, por exemplo, na apreciação do lugar e da realidade do discurso nacionalista da produção literária, a inserção da tradição oral na escrita contemporânea, a evolução dos géneros literários pelo contacto com os modelos tradicionais, o funcionamento do processo crítico, a definição e o papel de instâncias de consagração, etc. (Chevrier, 2004, p. 257-258).

O que continua a dominar a investigação comparatista euro-americana é o princípio da supranacionalidade[6] acorrentado ao espartilho de visões do mundo centradas no Ocidente, já denunciado sobretudo por escritores, críticos literários e comparatistas originários do åhemisfério sulò. A matriz francesa marcada pelos estudos das influências das literaturas nacionais sobre as Literaturas Africanas com a primazia conferida ao lugar central ocupado pelas línguas europeias, inspirava a prática comparatista em diversos espaços académicos do mundo.Assim se compreende que Bernth Lindfors, recorrendo à referida matriz, tenha publicado um livro (Lindfors, 1994) orientado por preocupações que visavam åexaminar as influências ocidentais em textos africanosò, em obediência à ådefinição tradicional de Literatura Comparadaò. Mas a situação nos Estados Unidos, onde a disciplina adquiriu a sua maturidade, fornece elucidativos exemplos dos preconceitos dominantes. Se a Literatura Comparada constituía a disciplina ideal para os Estudos Literários Africanos, Bernth Lindfors afirmava que o ensino das Literaturas Africanas não era realizado nos departamentos de Literatura Comparada devido à sua vocação etnocêntrica, orientada para as literaturas da Europa ocidental. A exceção era representada por algumas universidades que introduziam o ensino das Literaturas Africanas nos programas curriculares de Literatura Comparada[7]. O etnocentrismo exprime-se através da exclusão de línguas e culturas diferentes das ocidentais. A exclusão de outras tradições, outras åHumanidadesò, outras ågrandes obrasò é denunciada por Edward Said quando, em 2000, nas conferências proferidas na Universidade de Columbia, se debruçava sobre a åesfera do humanismoò. Said defendia o reconhecimento da existência de åoutras tradiçõesò e åoutras Humanidadesò, cujo estudo pode de igual modo contribuir para definir o centro ånão aprofundadoò do que o pronome possessivo ånossoò representa (2004: 3-4). Por essa razão, Edward Said afirma:

Across the board, the restrictions of basic core university courses to a small number of translated and dutifully venerated Western master-pieces, the narrowed perspetives on what constitutes “our” world, the obliviousness to traditions and languages that seem to be outside respectable or approved attention – all of these must be jettisoned or at the very least submitted to a radical humanistic critique. For one thing, too much is known about other traditions to believe that even humanism itself is exclusively a Western practice (op.cit, p. 53-54).

A crítica humanista radical de que fala Edward Said é efetivamente exigível, se tivermos em atenção os desafios epistemológicos decorrentes da necessária busca de alternativas perante os monopólios e as hegemonias do ensino das línguas e literaturas nacionais nas escolas e universidades do Ocidente, bem como da atitude amnésica relativamente a outras tradições e línguas aparentemente situadas fora do que é respeitável e conveniente observar. Em tempo de abundante informação sobre o nosso planeta e seus habitantes, não deixa de ser abominável a persistente indiferença perante outras culturas. A Edward Said junta-se Pascale Casanova que, em La République Mondiale des Lettres, qualifica o åuniversalò como uma das mais diabólicas invenções do centro dominante onde åos detentores do monopólio universal convocam a humanidade inteira a vergar-se a seus pés. O universal é o que eles declaram como adquirido e acessível a todos, desde que se assemelhem a elesò (1999, p. 227). Edward Said e Pascale Casanova parecem convergir no sentido de legitimar a åcrítica humanista radicalò. A argumentação que desenvolvo pretende corroborar a perspetiva do crítico palestino-americano, associando-nos àqueles que desvendam nestas cortinas dominadas pela åfábrica do universalò o valor que deve ser atribuído a outros segmentos das Literaturas Africanas, nomeadamente, as literaturas orais e as literaturas em línguas africanas.

Conclusão

Podemos concluir que, neste dealbar do século XXI, a discussão sobre questões atinentes às relações existentes ou inexistentes entre as Literaturas Africanas e outras literaturas do mundo, no estado atual dos debates sobre a åliteratura-mundoò e ågenealogia da agência pós-colonialò[8] à escala global, levanta relevantes problemas de ordem ética e epistemológica. Desde logo, a disciplinarização dos estudos literários pós-coloniais, associada à Literatura Comparada, é uma expressiva manifestação do modo como a proeminência do pensamento ocidental eurocêntrico de ascendência anglosaxónica resiste aos modelos teóricos alternativos mais adequados à diversidade epistemológica do mundo hodierno. Por outro lado, a sua problemática denominação como disciplina académica pretende de modo anacrónico revelar a potência de uma Europa cujo sentido organizava-se em torno do colonialismo enquanto período histórico. Além disso, regista-se o reconhecimento de uma impotência epistemológica revelada através de uma conceitualização ambígua que tece as agendas de investigação e ensino de acordo com interesses hegemónicos em determinados países anglófonos[9]. Mas as controvérsias e a abundante produção bibliográfica sobre os estudos pós-colonias foram dando origem à revisão dos pressupostos que apoiam essa periodização e seu aparato teórico, sendo questionado o alcance da sua geoepistemologia. Por essa razão, são igualmente imperativos de natureza ética que impelem outros setores da academia a proclamar a advocacia do åfim da teoria pós-colonialò, pois um único centro já não existe, tudo se fragmenta em legados de outros sujeitos da alteridade num mundo policêntrico cujo movimento conduz àquilo a que Ngugi wa Thiong’o designa por åglobalecticsò[10].

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 Notes 

[1]. Elizabeth Gunner, åAfrican Literatures and the Canon: The case of the United Kingdomò, Ibidem, p. 101-109.

[2]. Cf. Albert Gérard, åNew Frontier for Comparative Literature: Africaò, inContexts of African Literature,Amsterdam-Atlanta, Rodopoi, 1990, pp. 71-77; Stephen Arnold, åAfrican Literary Studies: Profile and Guide to a New Disciplineò, in Donald I. Ray, Peter Shinnie e Denovan Williams (ed.), Into the 80’s.TheProceedings of the Eleventh Annual Conference of the Canadian Association of African Studies, Vol. II,1981, pp. 128-149; in Stephen Arnold, åAfrican Literary Studies: The Emergence of a New Disciplineò, in Stephen Arnold (ed.), African Literature Studies: The PresentState/L’État Présent, Three Continents Press, 1985, pp. 47-68.

[3]. O espaço de comparação hoje envolve comparações entre produções artísticas geralmente estudadas por diferentes disciplinas; entre várias construções culturais das referidas disciplinas; entre tradições culturais, altas e populares, e os de culturas não-ocidentais; entre as produções culturais antes e após ocontacto de povos colonizados […].Estas formas de contextualizar literatura nos campos gastos do discurso, cultura, ideologia, raça e género são tão diferentes dos antigos modelos de estudo literário acordo com os autores, as nações, períodos e géneros que o termo åliteraturaò não pode mais adequadamente descrever o nosso objeto de estudo (Bernheimer, 1995, pp. 41-42).

[4]. Já em 1976, Albert Gérard apresentava o projeto de História das Literaturas Africanas em Línguas Europeias no congresso da Associação Internacional de Literatura Comparada realizada em Budapeste. O resultado foi a publicação de dois importantes volumes. Ver in Albert Gérard (ed.), European-LanguageWriting in Sub-Saharan Africa,Budapest, Akademai Kiadó, 1986.

[5]. Ao propor uma abordagem do campo das oralidades africanas, Jean Derive admite a possibilidade de operar com os seguintes tipos de critérios cumuláveis para a sua periodização do que designa por åprodução literária universalò: antropológico, histórico, sociológico e textual.

[6]. Numa simples e lapidar formulação, Claudio Guillén define a Literatura Comparada como ådomínio de investigação literária que se ocupa do estudo sistemático de conjuntos supranacionais consistindo no exame das literaturas do ponto de vista internacional, pois a sua identidade não depende apenas da atitude ou da postura do observadorò.Cf. Claudio Guillén, Entre lo Uno y lo Diverso. Introducción a la Literatura Comparada (Ayer hy Hoy), Barcelona, Tusquets Editores, 2005, p.27.

[7]. Na década de 90, tais eram os casos da Indiana University, University of Wisconsin, University of Southern California, University of Washington, University of Texas (Dallas), University of Texas (Austin), Pennsylvania State University.Cf. Bernth Lindfors, Long Drums & Canons.Teaching and Research inAfrican Literatures, Trenton, Africa World Press, 1995, p. 30.

[8]. Expressão usada por Homi Bhabha quando analisa o problema do sujeito no âmbito dos debates da teoria pós-colonial. Cf. Homi K. Bhabha, O Local da Cultura, trad. Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis e Gláucia Renate Gonçalves, Belo Horizonte, Editora UFMG, 2010.

[9]. Cf. Bill Ashcroft, Gareth Griffiths e Helen Tiffin, The Empire Writes Back, London – New York,

Routledge, 2002. Os autores fornecem uma definição do termo: åWe use the term ‘post-colonial’, however, to cover all the culture affected by the imperial process from the moment of colonization to the present day. This is because ther is a continuity of preoccupations throughout the historial process initiated by European imperial aggression. We also suggest that it is most approriate as the term for the new cross-cultural criticism which has emerged in recent years and for the discourse through which this is constituted. In this sense this book is concerned with the world as it exists during and after the period of European imperial domination and the effects of this on contemporary literaturesò, p. 2.åSo the literatures of African countries, Australia, Bangladesh, Canada, Caribbean countries, India, Malaysia, Malta, New Zealand, Pakistan, Singapore, South Pacific countries, and Sri Lanka are all post-colonial literatures. The literature of the USA should also be placed in this categoryò, p. 2.

[10]. Segundo Ngũgĩ, trata-se de um neologismo. åGlobalectics, derived from the shape of the globe, is the mutual containment of hereness and thereness in time and space, where time and space are alço in each other [ì ] Reading globalectically is a way of approaching any text from whatever times and places to allow its contents and themes form a fere conversation with other texts of one’s time and place, the better to make it yield its maximum to the humanò.Cf. THIONG’O, Ngũgĩ wa, Globalectics. Theory and the Politics of Knowing, New York, Columbia University Press, 2012.

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