Revista de Humanidades e Ciências Sociais

Al Irfan é uma revista científica de periodicidade anual fundada em 2014 no IEHL. Publica trabalhos de caráter disciplinar, pluridisciplinar e interdisciplinar, dando ênfase à exploração dos mundos hispânicos e lusófonosassim como as suasinterseções, nassuasdimensões históricas, culturais, sociológicas, políticas e económicas.

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Representação, peregrinação, sacrifício e possessão no culto a Aisha Qandisha

Bruno Ferraz Bartel
Universidade Federal Fluminense, Niterói, Brasil

O livro tem como foco o culto ao jinn[1] feminino Aisha Qandisha, presente na vila rural de Sidi ‘Ali, localizada na região de Meknes-Tafilalet, no Marrocos. A análise proposta aponta para as condições e os elementos requeridos na construção de um sistema de comunicação ritual sob a forma de peregrinações, oferendas e sacrifícios de animais, além de rituais de transe e possessão, realizados pelos indivíduos que buscam, na figura desse agente religioso, alcançar seus desejos e ambições relacionados a momentos de crise de vida, assim como solucionar seus conflitos e infortúnios pessoais. A obtenção de um emprego, a realização de um casamento, a geração de filhos ou simplesmente a cura de alguma doença fazem parte das temáticas privilegiadas, principalmente por mulheres, no cotidiano da vida religiosa em Sidi ‘Ali.

Faz-se presente entre esses indivíduos o reconhecimento de um poder (ou força religiosa) advindo de Aisha Qandisha, capaz de transformar o status individual e social através da noção de baraka[2]. A questão geral presente no material etnográfico apresentado no livro contempla como esse poder investido (baraka) no ente religioso atesta um caráter de ambiguidade (dupla função) com relação ao sagrado quando os indivíduos são colocados em contato, via ritual, com sua personalidade. Em suma, a pesquisa investiga como a ideia de uma aproximação com a esfera do sagrado pode tanto produzir benesses e bençãos desejadas pelos indivíduos quanto colocá-los em situação de perigo (como, por exemplo, a produção, neles, da loucura), dadas as impurezas que, segundo a crença local, estão associadas à figura de Aisha Qandisha e podem, portanto, ser suscitadas nessa experiência com o “sagrado”.

O universo etnográfico do livro está relacionado ao conjunto de crenças e ritos associados no Marrocos aos jnun. A crença em tais seres, tão difundida entre a população marroquina, oferece a questão do perigo aos rituais desenvolvidos em parceria com esses agentes religiosos devido à dimensão da imprevisibilidade de seus efeitos, uma vez que se reconhecem as múltiplas formas de agênciados jnun, entendidas como um modo de ação causado por intenções prévias. Entretanto, cabe salientar a procura desses agentes religiosos pelas mais variadas razões por parte dos indivíduos. Nesse sentido, a ideia de risco, ao longo dos desenvolvimentos rituais, é mais apropriada para descrever essas relações envolvendo os possíveis contatos com jnun.

A ênfase na ideia de risco contida no livro procura ir além de apenas confirmar o caráter transformador da experiência com o sagrado, levando em consideração as imprevisibilidades atuantes nas forças religiosas sobre os indivíduos, o que possibilita repensar o papel das ambiguidades geradas e tidas como causadoras dos malefícios. No caso etnográfico em questão, Aisha Qandisha é reconhecida por sua capacidade de provocar a perda da racionalidade nos indivíduos (o cálculo de suas efetivas ações em curso no cotidiano) durante a realização de seu culto, pela exposição dos mesmos a ela num prolongado período de tempo. Os ritos de peregrinação, oferendas e sacrifícios de animais e os rituais de transe e possessão não apenas constroem uma relação dos indivíduos com esse agente religioso, mas constituem-se também como meios pelos quais a noção de perigo floresce entre os indivíduos.

O risco refere-se ao desenvolvimento de uma loucura proporcionada por Aisha Qandisha como forma de punição dos indivíduos, geralmente associado ao tempo de exposição dos mesmos à sua personalidade. A noção de loucura[3] produzida pelo ente religioso é representada por uma possessão contínua da mente e constitui-se como uma possibilidade a ser ponderada pelos indivíduos que estabelecem suas relações com tal figura inspiradora de medo (terror) e, ao mesmo tempo, de encantamento (fascinação). A manifestação da loucura adquire valor quando se percebe um esvaziamento das relações do indivíduo em seu mundo social, ao mesmo tempo em que uma maior presença da figura de Aisha Qandisha é percebida em seu cotidiano.

Em um nível teórico, a pesquisa contribui para a exposição dos limites na construção da experiência com o sagrado tendo em vista a dinâmica do culto a Aisha Qandisha por meio da noção de risco. O primeiro capítulo do livro refere-se, de uma maneira geral, às representações dos jnun no universo islâmico e constrói um panorama analítico acerca desses seres no Marrocos. Também é apresentado o mito de Aisha Qandisha, procurando relacioná-lo com os “cultos femininos” associados a ela, tendo como referência as práticas cotidianas na vila de Sidi ‘Ali. A parte final explora a noção de baraka no Marrocos, indicando como essa fonte de poder abriga ambiguidades a partir da intervenção de jnun na realidade.

O segundo capítulo explora a peregrinação a vila de Sidi ‘Ali e investiga os modos relacionais entre os indivíduos e a figura de Aisha Qandisha. As crises de vida, que levam as pessoas à vila, acabam por mobilizar diversos símbolos que são acionados entre os peregrinos como forma de expressar os seus conflitos ou infortúnios pessoais. Ademais, busca-se entender como a força (baraka) investida e reconhecida em Aisha Qandisha acaba possuindo um valor eficaz na resolução dos conflitos e problemas ou, pelo menos, na atenuação de suas consequências para os indivíduos.

O terceiro capítulo descreve o sistema de comunicação ritual com Aisha Qandisha através da oferenda de objetos e do sacrifício de animais realizados em sua gruta, afirmando uma submissão dos indivíduos às vontades e preferências do jinn-feminino. Esse contato inicial acarreta consequências nas trajetórias dos indivíduos que buscam se relacionar e mediar uma relação com Aisha Qandisha. Além disso, o papel das cores (branco, negro e vermelho) e das substâncias (fogo, fumaça e sangue) acaba evidenciando o universo simbólico do jinn.

Por fim, o quarto capítulo focaliza os ritos de transe e de possessão organizados por pelo menos uma confraria marroquina, no caso, a Hamadsha, que realizava a sua peregrinação à vila de Sidi ‘Ali. Destaca-se a centralidade da personalidade de Aisha Qandisha na construção de um sistema de comunicação ritual em que se reconhece um valor expresso pelos indivíduos através de rituais de “efervescência coletiva”. A performance corporal dos participantes dos rituais de transe e possessão pressupõe a condução (agência) de um agente religioso, no caso, de Aisha Qandisha.

Diferente do modelo proposto por Émile Durkheim em Formas elementares da vida religiosa (1912), que considera isolados os elementos que formam a noção de um sagrado, sobretudo através dos valores produzidos por um determinado grupo social, a ideia de que a força (baraka) contida no sagrado pode oferecer uma potencialidade sobre seus fenômenos relacionados (no caso, representação, peregrinação, sacrifício e possessão no culto a Aisha Qandisha) constitui uma forma adequada para a investigação da vida religiosa dos grupos sociais envolvidos na vila de Sidi ‘Ali. Mesmo que se reconheça a característica de ambiguidade presente na noção de sagrado durkheimiana, as limitações quanto às conexões possíveis, que garantiriam a vivência desse sagrado, restringem as observações da dinâmica dos processos a partir das ideias e, sobretudo, das ações desenvolvidas pelos grupos sociais. E, se o sagrado ainda continua a desempenhar um importante valor na organização das coletividades, o papel exercido pela baraka de Aisha Qandisha sobre as mentalidades e, novamente, sobre as práticas sociais, não pode ser desconsiderado sem que se faça uma devida atribuição à perspectiva cultural.

Nesse sentido, o efeito duplo produzido pela figura de Aisha Qandisha (fascinação e terror) sobre os indivíduos, e que se encontra presente nas formas próprias de seu culto (representação, peregrinação, sacrifício e possessão), se aproxima da ênfase sobre o papel das experiências e das vivências diante do sagrado, sugerida por Rudolf Otto em O sagrado (1917). As expressões simbólicas contidas no culto se encontram imbricadas nos seus ritos, justamente por sua capacidade de fornecer os elementos necessários que caracterizam os “estados de efervescências rituais”, refletidos nas condutas e na dinâmica dos indivíduos na construção de suas experiências.

Longe de estar separada, em uma esfera à parte, a figura de Aisha Qandisha, assim como a dos demais jnun, coabitaria a realidade social dos humanos. A manutenção de suas relações não apenas se traduz na crença de um plano visível (conhecido) e invisível (desconhecido), mas, sobretudo, através das experiências de “presença” e de “arrebatamento” derivadas do contato dos indivíduos com a baraka. O que norteia esses contatos são justamente as potencialidades contidas na aquisição desse poder, por intermédio dos agentes religiosos, levando-se em conta os riscos que são assumidos e traduzidos sobre a forma da loucura.

A tríade presente na personalidade de Aisha Qandisha (jinn feminino/mulher de santo/mulher que almeja um matrimônio) exprime a complexidade de suas “máscaras” assumidas no desenvolvimento de seu culto, o que contribui para a permanência das tramas míticas que a envolvem na vila de Sidi ‘Ali. Entretanto, cabe reconhecer o papel exercido por Aisha Qandisha no imaginário e também nas práticas femininas de organização dessas experiências. O conteúdo etnográfico busca ir além da noção de “culto feminino”, como forma de manter em perspectiva as dinâmicas desenvolvidas pelos homens, que também demonstravam possuir uma comunicação significativa com o ente religioso.

O culto a Aisha Qandisha conta com a peregrinação (ziyara) como uma forma de abertura ritual do sistema de comunicação existente. A organização de uma viagem para a obtenção de baraka torna-se algo necessário por mediar uma relação do peregrino consigo mesmo e, ao mesmo tempo, com o mundo em que se insere. A baraka de Aisha Qandisha desempenha um importante papel nos processos de resolução de conflitos individuais, na medida em que contribui para o esclarecimento de problemas, valores e objetivos almejados. Todavia, cabe reconhecer ao mesmo tempo o agravamento de alguns dos problemas enfrentados pelos peregrinos. O que marcou a maioria dessas experiências foi, justamente, o caráter ambíguo do contato com a força (baraka) que acompanha a ação e a intenção (agência) de Aisha Qandisha, tanto para o bem, quanto para o mal.

As práticas vinculadas ao desenvolvimento do culto ganharam maior clareza a partir da observação do ritual de sacrifício na gruta de Aisha Qandisha. Essa observação permitiu desenvolver o argumento de que a baraka contida no ente religioso fornece os elementos simbólicos indispensáveis para que se possa distribuir essa força, o que é atestado pelas alterações dos estados existenciais dos sacrificantes. Nesse sentido, a transformação pelo efeito moral entre os peregrinos desenvolveu seu ápice através dos símbolos contidos nos objetos rituais (animais, vegetais, incensos etc.) e, sobretudo, a partir do sistema de cores atuante na dinâmica do ritual. A lógica da distribuição e da transmissão de baraka na gruta de Aisha Qandisha se realiza através da manutenção de um quadro de regras. Uma condição sinequa non, no caso, é a restrição imediata de qualquer elemento considerado impuro, sob o risco de se perder o investimento ritual feito pelos indivíduos a partir do sistema de oferendas.

Por fim, coube destacar a dinâmica da baraka de Aisha Qandisha em sua relação com as suas formas de possessão. Na vila de Sidi ‘Ali, o ritual de possessão não constituiu, meramente, a manifestação de um “estado alterado de consciência” dos devotos, mas, sim, um sistema de comunicação por meio do qual a agência (intenção) de Aisha Qandisha é experienciada e vivificada pelos indivíduos, o que reflete o grau de proximidade que estes acabam estabelecendo com o ente religioso na construção de uma experiência ambígua diante do sagrado. Isso porque a baraka obtida por meio da aliança dos indivíduos com Aisha Qandisha (com as peregrinações e os sacrifícios praticados na gruta) era a mesma que, por agência do ente religioso, poderia conduzi-los à loucura. A experiência ambígua com o sagrado se evidencia, assim, na noção do duplo efeito da baraka do jinn sobre os indivíduos. A tensão que pode decorrer dessa polarização tem um impacto relevante na organização da vida religiosa de quem compartilha de sua lógica e reconhece o papel fundamental exercido pela intervenção dos jnun na realidade humana, particularmente no que concerne ao campo religioso islâmico.

Aisha Qandisha atua, por assim dizer, nas margens e interstícios da vida social. Cruzar esses limites torna-se possível a partir dos dispositivos rituais existentes, o que faculta aos indivíduos manterem um sistema de comunicação eficaz com o ente religioso. A performance na condução dos rituais é um fator determinante na experiência e na vivência dessa ambiguidade do sagrado.

Notes

[1]. O termo (jinn; pl. jnun) designa os seres invisíveis feitos de fogo que compõem o universo simbólico da religião islâmica. A palavra jnun no Marrocos é o plural do termo jinn, que também é usado nos demais países que possuem o Islã como código e discurso cultural. Um ser feminino deste tipo recebe, às vezes, a denominação de jinniya.

[2]. O termo (baraka; pl. barakat) pode ser interpretado como uma benção que emana de um ser e que pode ter o efeito miraculoso na vida de outro indivíduo. Entretanto, a ideia de poder e força, a partir dessa categoria, quando vinculada à personalidade de Aisha Qandisha, garante o efeito de transformação sobre uma situação.

[3]. Um de seus efeitos seria o arrebatamento do corpo e das funções psíquicas dos indivíduos. A loucura ocasionaria para o indivíduo a perda de sua ligação com o mundo social.

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