Revista de Humanidades e Ciências Sociais

Al Irfan é uma revista científica de periodicidade anual fundada em 2014 no IEHL. Publica trabalhos de caráter disciplinar, pluridisciplinar e interdisciplinar, dando ênfase à exploração dos mundos hispânicos e lusófonosassim como as suasinterseções, nassuasdimensões históricas, culturais, sociológicas, políticas e económicas.

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Silvia Montenegro e Fatiha Benlabbah (orgs.), Musulmanes no Brasil. Comunidades, Instituições e Identidades Rosario/Editora da Universidad de Rosario e Rabat/ Instituto de Estudos Hispano-Lusófonos, 2013, 249p.

Eva-Maria von Kemnitz
Institut des Etudes Orientales-FCH. Université Catholique Portugaise, Lisbonne

A produção científica em língua portuguesa dedicada à problemática árabe-islâmica tem conhecido um incremento notável nos últimos anos, tanto no Brasil, como em Portugal. É-nos, por isso, particularmente grato resenhar o livro Muçulmanos no Brasil. Comunidades, Instituições, Identidades, editado recentemente, simultaneamente em três línguas, o Árabe[1], o Português e o Castelhano[2]. O livro em apreço, coordenado por Silvia Montenegro e Fatiha Benlabbah foi editado na Argentina pela Editora da Universidad Nacional de Rosario (UNR) e pelo Instituto de Estudos Hispano-Lusófonos (IEHL) para a versão árabe. Esta publicação resultou de uma parceria entre a produção em universidades brasileiras e a árabe Mohammed V através do IEHL.

O presente volume é composto por oito ensaios, situados no campo de antropologia, ciências de religião e sociologia. O seu objectivo e também ambição é apresentar o quadro global do Islão actual no Brasil, tomando em consideração as principais comunidades muçulmanas do país e as suas instituições, tal como o mostram as pesquisas académicas, seja em forma de resultados de teses apresentadas ou como resultado de trabalhos de campo, realizados na última década. Um traço interessante da equipa autoral é o facto de agregar investigadores com longa e prestigiada carreira académica tais como Silvia Montenegro, Francirosy Campos Barbosa Ferreira e Paulo Gabriel Hilu Rocha Pinto, investigadores doutores como Gisele Fonsecas Chagas e ClaúdiaVoigt Spinola, ao lado de jovens investigadores, mestres Vlademir Lucio Ramos e Edmar Avelar de Sena.

Os actuais Muçulmanos do Brasil são, na maior parte dos casos, descendentes de Muçulmanos de origem sírio-libanesa. Começaram a vir para o Brasil ainda em finais do século XIX, em números diminutos, crescendo o seu número nos anos vinte do séc. XX e voltando a crescer significativamente a partir dos anos 50 do mesmo século, com a vinda maciça de Libaneses, sírios e palestinianos originada pelas guerras no seguimento da criação do estado de Israel. Os Muçulmanos dessas comunidades representam diversas orientações: sunitas (maioritários) e xíitas: duodecimanos, drusos e alauítas. Outros ainda, tornaram-se Muçulmanos por conversão, o que oferece um panorama bastante diversificado. O seu número é difícil de conhecer, tal como acontece em muitos outros contextos, oscilando entre o fornecido pelo Censo 2010 que aponta para 35.167 muçulmanos (registados) e que contrasta com as estimativas apresentadas pelas instituições islâmicas que apontam para cerca de um milhão, porquanto alguns investigadores estimam o número de Muçulmanos em cerca de 300.000 (Paulo G. Rocha H. Pinto) ou seja cerca de 0,5 % da população global do país. De qualquer modo, trata-se de uma das maiores comunidades muçulmanas da América Latina. O volume em apreço acompanha este novo universo da diáspora islâmica no Brasil, focando, como indica o próprio título, as comunidades com as suas características, a sua institucionalização através da formação das suas organizações de carácter social e religioso e finalmente debruça-se sobre as identidades tal como se desenvolvem e evoluem.

Assim, são apresentados diversos estudos de caso relacionados com as principais comunidades do Brasil, a do Rio de Janeiro através do texto de Silvia Montenegro “Des-etnificação e Islamização. A Identidade muçulmana na comunidade do Rio de Janeiro” (pp. 21-54); a do estado de São Paulo, a mais numerosa no contexto brasileiro que agrupa cerca de 40% desse universo, através do ensaio de Francirosy Campos Barbosa Ferreira “Observando o Islã em São Paulo. Nascidos e revertidos ao Islã” (pp. 115 – 141); a de Belo Horizonte através do estudo de Edmar Avelar de Sena, intitulado: “Presença do Islã em Belo Horizonte. Aspectos da vidareligiosa da Sociedade Beneficiente Muçulmana de Minas Gerais” (pp. 165-192); a comunidade de Curitiba é apresentada por Jakson Hansen Marques em “Muçulmanos em Curitíba. Uma análise das dinâmicas identitárias a partir do jornal Assiraj” (pp.193-224). O último capítulo, intitulado “Imigrantes e Convertidos. Etnicidade e identidade religiosa nas comunidades muçulmanas no Brasil” (pp. 225-250) da autoria de Paulo G. Hilu Rocha Pinto, antropológo, oferece uma síntese dessas comunidades, problematizando as do Rio de Janeiro (pp. 229-233), de Curitíba (pp. 233-237), de Saõ Paulo (pp. 237-240), abordadas anteriormente, mas acerca das quais o autor acrescenta dados e interpretações, que permitem uma leitura enriquecedora e matizada. Foca ainda a comunidade da Foz de Iguaçu, situada na Tríplice Fronteira (pp. 240-246) que se diferencia das restantes na medida em que não tem praticamente convertidos.

Desde a mais antiga de São Paulo (1927), até a mais recente da Foz do Iguaçu, as comunidades seguem um padrão evolutivo similar, organizando-se, inicialmente, em associações formadas por imigrantes, destinadas a satisfazer a necessidade de entre-ajuda e de agremiação religiosa. Esse papel foi desempenhado por diversas Sociedades Muçulmanas Beneficientes locais e regionais. Fases de maior consolidação e crescimento, eram seguidas pela construção de mesquitas, sendo a mais antiga a de São Paulo (1946). As comunidades muçulmanas no Brasil são constituídas pelos emigrantes e seus descendentes, mas aumentaram também pela conversão, um fenoméno relativamente recente, acentuado a partir de 2001, atingindo na actualidade cerca de 50% em algumas comunidades.

O fenómeno de conversão é estudado por Vlademir Ramos em “Conversão ao Islã. Estudo sobre a conversão em São Bernardo do Campo, São Paulo” (pp. 55-90) e ainda no capítulo “Um chamado ao Islã. Os cursos de religião na Comunidade Sunita de Rio de Janeiro” (pp. 143-164) da autoria de Gisele Fonseca Chagasque aborda o conceito de da’wa ou seja da propagação do Islão e das suas práticas através de uma reforma moral dos indivíduos, influenciada pelo espírito de salafiyya, entendido como a reforma da sociedade baseada nos ensinamentos primordiais do Islão contidos no Alcorão e na Sunnah. Como motivação para conversão ao Islão é apontada a clareza, lógica e racionalidade do Islão resultante de uma busca de alternativa estável para pessoas desencantadas com o cristianismo nas suas diversas variantes, encontrando no Islão a certeza e o equilíbrio.

Precisamente entre os “nascidos Muçulmanos” e os convertidos verificam-se frequentes tensões, aspecto desenvolvido, em particular, por Silvia Montenegro, Vlademir Ramos e por Paulo R. Pinto. Alguns investigadores designam-nos como “revertidos” (Francirosy Barbosa Ferreira). O grau de identificação entre o que poderá ser definido em termos antropológicos como “etnicidade árabe” e a “identidade muçulmana” afigura-se maior nas comunidades onde numericamente predominam os imigrantes sírios, libaneses, palestinos e seus descendentes, caso das Comunidades de São Paulo, Curitiba e Foz do Iguaçu. Pelo contrário, na Comunidade do Rio de Janeiro onde a percentagem de convertidos é predominante, assiste-se a uma articulação diferente entre o Islão e a identidade árabe, sendo esta última praticamente rejeitada.

Em termos de organização interna, um papel de destaque cabe à figura do shaykh como líder ou “autoridade formal” da comunidade. As suas origens reflectem-se frequentemente na orientação interpretativa dos seus ensinamentos e das respectivas influências externas que veicula. Um caso extremo, analisado neste volume, apresenta a comunidade de Curitiba, inicialmente de orientação sunita, mas que a partir dos anos 80, com a vinda maciça de xíitas em função do recrudescimento de guerra no Líbano e na Palestina e com a vinda de um shaykh xíita contribuiu para uma nova orientação da Comunidade que além do seu conflicto interno, espelha ainda a rivalidade entre a Arábia Saudita e o Irão na disputa pela influência entre os membros da ‘ummah. As relações a nível transnacional estão também moldadas pela actuação de organizações islâmicas como por exemplo o Centro de Divulgação do Islam para a América Latina e a WAMY (Assembleia Mundial da Juventude Islâmica), esta última vinculada ao wahabbismo.

Neste volume, há ainda um estudo que trata da problemática do género, visto através do prisma do hijab ou seja do “véu” da autoria de Cláudia Voigt Espinola ,“O véu que (des) cobre a comunidade árabe-muçulmana de Florianópolis” (pp. 91-113). Há quem fale, efectivamente, da “reinvenção de uma tradição” referindo-se ao regresso maciço ao uso do véu em consequência da “ideologização do hijab” por grupos políticos islâmicos que procuraram impor o seu uso nos anos 70 e 80 e que após a Primeira Intifada em 1988, transformou-se num símbolo de apoio e solidariedade com a resistência nacional na Palestina e que ressurgiu no Brasil como um símbolo identitário entre as Palestinianas e também entre as Muçulmanas convertidas, embora por razões diferentes.

A vivência específica dos Muçulmanos do Brasil, leva Paulo R. Pinto a questionar, inclusive, a afirmação de Oliver Roy (2004) de que o Islão em contextos diaspóricos seria codificado como um sistema abstracto livre de referências a determinados contextos culturais. Para o caso brasileiro, Paulo Hilu Rocha Pinto propõe um modelo analítico que tome em consideração “elementos e processos culturais locais, nacionais e transnacionaisenvolvidos na estructuação “das identidades e trajectórias nas várias arenas sociais que envolvem suas vidas quotidianas” (p. 249).

A publicação em apreço constitui um valioso contributo para o mapeamento do Islão diaspórico no Brasil e para a sua caracterização através do processo de formação das comunidades locais que precede a sua institucionalização, constituindo o enquadramento onde se definem e evoluem as identidades, reflectindo a interacção entre os factores locais, nacionais e transnacionais nas quais o Islão se insere. Várias fotografias ilustram os espaços de oração e convivialidade dos Muçulmanos no Brasil.

Um aspecto singular a sublinhar é a circunstância de a diáspora islâmica no Brasil não ser resultado de um processo de descolonização, mas dos condicionalismos da história conturbada do Médio Oriente, da criação do estado de Israel e dos conflictos e guerras desencadeados por essa entidade política.

Ressalta ainda um tratamento diferente concedido pela sociedade brasileira à figura do imigrante, depreendido como um factor positivo, motor de desenvolvimento económico, contrastando com as atitudes negativas das sociedades europeias. O facto de os emigrantes árabe-muçulmanos serem “brancos” numa sociedade marcada pelo esclavagismo era-lhes favorável, além de que esses imigrantes eram portadores de um grau de escolaridade e formação muito superior relativamente aos imigrantes de outras origens no Brasil, o que lhes assegurou o êxito económico e social, não tendo sido ostracizados. Uma sombra negativa pairou, recentemente, sobre essas comunidades pela atitude dos média, também no Brasil, que após 11 de Setembro passaram, em muitos casos, equiparar Muçulmanos aos “terroristas”, gerando algumas atitudes de xenofobia violenta, o que levou o Presidente Lula a instituir, em 2008, uma “Marcha contra a Intolerância Religiosa” (p.232).

Esta publicação é reveladora da amplitude de investigação sobre a problemática do Islão desenvolvida no Brasil, tanto através dos trabalhos que formam o presente volume, como através da bibliografia citada, produzida por investigadores brasileiros. Sendo a primeira de uma serie de estudos sobre o Islão na América Latina, consoante o projecto concebido pelas suas organizadoras Silvia Montenegro e Fatiha Benlabbah, permite esperar uma fructuosa continuidade.

Notes

[1] ‬المسلمون‭ ‬في‭ ‬البرازيل،‭ ‬قضايا‭ ‬الهوية‭ ‬والانتماء‭ ‬للجماعات‭ ‬والطوائف‭ ‬والمؤسسات

جمع‭ ‬النصوص‭ ‬وقام‭ ‬بالتنسيق‭: ‬فاتحة‭ ‬بنلباه‭ ‬و‭ ‬سيلبيا‭ ‬مونتينغرو‭. ‬إصدار‭ ‬مشترك‭ ‬بين‭ ‬معهد‭ ‬الدراسات‭ ‬الإسبانية‭ ‬البرتغالية‭ ‬و‭ ‬الجامعة‭ ‬الوطنية‭ ‬بروساريو‭  ‬الأرجنتين ‬2013,271‭ ‬ص

[2] Musulmanes en Brasil. Comunidades, Instituciones, Identidades

Silvia Montenegro e Fatiha Benlabbah (orgs.), Rosario/Editorial de la Universidad de Rosario y Rabat/ Instituto de Estudios Hispano-Lusos, 2013, 255p.

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