Revista de Humanidades e Ciências Sociais

Al Irfan é uma revista científica de periodicidade anual fundada em 2014 no IEHL. Publica trabalhos de caráter disciplinar, pluridisciplinar e interdisciplinar, dando ênfase à exploração dos mundos hispânicos e lusófonosassim como as suasinterseções, nassuasdimensões históricas, culturais, sociológicas, políticas e económicas.

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Uma abstração do abǧad? Entrevista com a artista portuguesa Sara Domingos

Fabrizio Boscaglia
Universidade Lusófona de Lisboa, Portugal Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa

Resumo

A presente entrevista com a artista portuguesa Sara Domingos pretende contribuir para o estudo de aspetos da espiritualidade islâmica que dialogam –direta ou indiretamente, de forma manifesta ou não– com o seu trabalho intitulado Uma Textura de Som, realizado em Lisboa em 2017. Esta obra consiste numa série de pinturas, cada uma representando uma letra do alfabeto árabe (abǧad), realizadas através de uma técnica mista, com acrílicos, tinta-da-china e aguarelas. Os aspetos abordados na entrevista são principalmente estes: a receção, a presença e a (re)elaboração de temas e elementos da espiritualidade islâmica no mencionado trabalho assim como na sua preparação e génese; a maneira como a língua árabe, na qualidade de língua sagrada da revelação e da tradição islâmica, foi abordada numa obra de arte contemporânea; a relação entre espírito, som e letra na produção da obra assim como na estética que lhe é própria; a contextualização de Uma Textura de Som num discurso cultural e crítico sobre o legado islâmico em Portugal, na história, na cultura e na arte portuguesa. A entrevista é introduzida por um breve escrito que pretende apresentar a presença islâmica no percurso artístico de Sara Domingos e que, além disso, procura fornecer elementos para um enquadramento estético do seu trabalho.

Palavras-chaves

Sara Domingos, islão, alfabeto árabe (abǧad), som, pintura.

Abstract

This interview with the Portuguese artist Sara Domingos contributes to the study of those aspects of Islamic spirituality which dialogue – directly or indirectly, manifestly or not – with her work entitled Uma Textura de Som [A Texture of Sound], produced in Lisbon in 2017. This work consists of a series of paintings, each one representing a letter of the Arabic alphabet (abǧad), realized through a mixed technique, with acrylics, ink of china and watercolors. The main aspects covered in the interview: the reception and (re) elaboration of themes and elements of Islamic spirituality in the mentioned work as well as in its preparation and genesis; the way in which the Arabic language, as the sacred language of Islamic revelation and tradition, was approached in a contemporary work of art; the relation between spirit, sound and letter in the production of the work as well as in its aesthetics; the contextualization of Uma Textura de Som in a cultural and critical discourse on the Islamic legacy in Portugal, in Portuguese history, culture and art. The interview is introduced by a short writing that intends to present the Islamic presence in the artistic journey of Sara Domingos and that, in addition, tries to provide elements for anaesthetic framing of her work.

Keywords

Sara Domingos, Islam, Arabic alphabet (abǧad), Sound, Painting

Recibido el 02/10/17. Aceptado el 07/11/2017.

Quando, na nuvem primordial, o indomável suspira por ser reconhecido pelo nomeado. Maria Gabriela Llansol2

Introdução

Subtis e indiretas menções à espiritualidade islâmica encontram-se na obra da artista plástica e gráfica Sara Domingos3, desde pelo menos a sua exposição de pintura e gravura Era Belo como a Lua4, realizada na cidade de Lisboa em 2012. Neste título ecoavam as palavras que se encontram em descrições tradicionais5 do Profeta Muḥammad, ditas por ‘companheiros’ deste (ṣaḥāba) e muito conhecidas no mundo muçulmano, muito menos no chamado Ocidente.

Assinalamos esta menção enquanto indireta, já que de um ponto de vista figurativo ou técnico não havia nas obras expostas elementos imediatamente reconduzíveis ao islão. O que a artista fez, então, através do título, foi assumir implicitamente a tradição islâmica como referência narrativa e estética universal – isto é, substancial e por isso latente e lunar –, o que emerge como dado significativo, inclusivamente para se estudar a génese da obra que é o objeto da presente entrevista, Uma Textura de Som (2017). Esta constitui-se como uma série de peças de pintura, cada uma representando uma letra do alfabeto árabe (abǧad), realizadas pela artista portuguesa através de uma técnica mista, que a própria descreve ao longo da entrevista.

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Fig. 1

Neste seu trabalho, Sara Domingos pretende, conforme as suas próprias palavras, conseguir «[u]ma abstração visual do som»6 do próprio alfabeto árabe. O conceito de abstração é por ela entendido como captação emotiva e manifestação expressiva da essência de cada letra, esta sendo considerada apenas ou princip(i)almente como som, utilizando o elemento figurativo (a forma tradicional da letra) como recipiente matricial, mas não formalmente vinculante do ponto de vista do cânone artístico. Daí, esta não ser uma obra caligráfica.

Daí esta ser, além disso, só aparentemente uma obra paradoxal, pois o que resulta não é uma abstração do alfabeto, entendida como de-formação, trans-formação ou de-semiotização do mesmo. Pelo contrário, a intenção é a de receber e transmitir as letras naquilo que elas têm de mais próprio e autêntico, sendo o ser humano um medium entre planos metafísicos dos quais ele próprio participa, numa busca e num testemunho da Unidade, que aliás emerge em várias partes da presente entrevista.

Pressentimentos místicos que nunca se tornam, contudo, numa estéril pretensão pseudoesotérica, antes desarmam com uma omnipresente delicadeza, que a nosso ver já Rui Lopo reconhecia em 2012 na arte da autora: «Digo-vos que acho quea Sara nos está a limpar do ruído e da tralha que em nossas almas vimos carregando, devolvendo-nos ao silêncio subtil das impressões vagas e definitivas. Ao caminho duma brancura reconquistada» (Lopo, 2012).

Em 2017, a substância e, ao mesmo tempo, o meio privilegiado desta operação é, como dissemos, o som, isto é, a vibração, a musicalidade, o tecido de explosões fonéticas, profundezas e subtilezas que o alfabeto árabe traz e que aqui adquire uma sua escuta peculiar, ainda disponível a reconhecer e restituir o espanto original da audição. Um espanto ao mesmo tempo virginal, pois a artista não é arabófona, e ancestral, já que a língua portuguesa é a entre as que mais “herdaram” sons e palavras do árabe. Num plano cultural, esta ancestralidade é comunicada pela artista no contexto de um discurso cultural sobre o legado árabe, islâmico e do Ġarb al-Andalus em Portugal.

Assim, a uma ‘recordação’ (dikr) metafísica (pelo ouvido e o coração), junta-se outra, cultural e linguística (pela arte e a comunicação), num intuito de ampliação e aprofundamento da consciência a vários níveis, desde o espiritual até ao social, como consta do significativo episódio, evocado pela artista, da fruição desta obra por uma mulher marroquina diretamente na presença da artista, o que deu como efeito um diálogo entre duas pessoas que, dos dois lados do mediterrâneo, encontraram no som do abǧad um ponto de contacto comunicativo, para além da recíproca ignorância das respetivas línguas. Eis onde Sara Domingos se confessa situada, determinada, humilde, e ao mesmo tempo aberta, disponível e crítica (assim como disponível à crítica).

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Fig. 2

Importante será refletir sobre o percurso estético de Sara Domingos. Há um caminho que assenta numa capacidade de mostrar a linguagem do informal através da experimentação, no que se poderia chamar de alfabetário contemporâneo do abstrato. Compare-se, a este respeito, o que escreveu o já mencionado estudioso português Rui Lopo, sobre Era Belo como a Lua (2012): «A Sara fabricou tipos tipográficos novos, sem letras e por isso capazes de dizer todos os nomes. O alfabeto que a Sara vem inventando é feito de sulcos e marcas de água, gotas que espalham ciscos, negativos de fotografias nunca reveláveis» (Lopo, 2012).

Este caminho chega, em Uma Textura de Som, à abstração da linguagem através do alfabeto tradicional que reincide na dinâmica do (re)moverem-se os véus para expressar, através da arte, tanto o poder do oculto, como do manifesto. Rocha da Sousa escrevia sobre a arte de Sara Domingos: «espreita-se e não se nomeia» (Sousa, 2012). O que a artista consegue em 2017,
com Uma Textura de Som é a operação complementar e sintética, de nomear e ao mesmo tempo permitir que a letra seja ‘véu’ (ḥiǧāb), que ao mesmo tempo esconde e mostra o Uno através da aparente multiplicidade.

Diz Davide Trasparente, sobre a Arte, que ela é «um fazer técnico que torna manifesta, no plano da matéria, uma ideia, uma intuição ou uma visão interior»7. Na Arte Tradicional, esta interioridade é vinculada à pura e disciplinada espiritualidade, segundo o pensador. A Arte Moderna, Pós-moderna e Contemporânea teria a ver, por sua vez, mais com a expressão de um psiquismo (pensamentos, emoções, etc.), seja ele dirigido pelo ou contra o cânone, e na melhor das hipóteses manifestando reflexos parciais do superior plano ideal-espiritual.

Em Uma Textura de Som Sara Domingos trabalha a nosso ver na fronteira, na ponte, no barzaḫ entre estas artes, testemunhando de uma linha, de um percurso subterrâneo e raro, mas rijo, da arte contemporânea e da arte portuguesa, e do trabalho da própria autora, que préavista ou pressente o advir eterno da originalidade, não entendida como regresso às origens
estáticas, nem como afirmação da novidade estética, nem ainda como síntese entre passado e futuro. Antes como pura manifestação re-orientadora da Beleza. A Beleza que sempre, e inevitavelmente, transforma e reconcilia.

Entrevista

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Fig. 3

FB8: Quais são os aspetos ou elementos da espiritualidade islâmica que se relacionam com este teu trabalho (Uma Textura de Som) e como o fazem?

SD: Este projeto partiu da simples ideia de trabalhar sobre o som de cada letra do alfabeto ou consonantário árabe e exprimir o efeito desse som através de uma forma visual.

Coloquei-me numa posição recetiva ao efeito desse som. Não perdendo a referência total da forma de cada letra, trabalhei através do gesto, de forma espontânea. É esta, aliás, a maneira pela qual costumo habitualmente desenvolver a linguagem do meu trabalho de artista.

Poderei indicar a relação com a espiritualidade islâmica no facto de, ao pronunciar o nome de cada letra, se despertar um efeito, se avivar uma memória, uma recordação de algo que não deixa de estar já gravado e que possa ser materializado, por assim dizer criado. Estou na realidade a trabalhar igualmente sobre mim, tornando-me consciente de uma harmonia ligada à Criação.

No fundo trata-se de deixar-me ser o instrumento (sem perder a dimensão e consciência do meu ser), para que as letras, reflexos do som do espanto original, se desenhem a si próprias, mas, ao mesmo tempo, permitindo-me que eu me torne mais consciente através delas.

FB: A ideia ou experiência de “inspiração” está de alguma forma contemplada no teu processo criativo enquanto artista, em geral? Podes descrever como e em que ótica?

SD: Vivi sempre e naturalmente a fazer ligações de ordem emocional com o que me rodeia. Através de um processo de armazenamento de elementos que, depois, possa usar para me expressar. Enquanto artista, ou criativa, tenho vindo igualmente a aperceber-me que existem ciclos de natureza criativa. Alturas do ano, por exemplo, em que me sinto mais disponível para a expressão e outros mais para a introspeção.

No fundo inspiro, fazendo um trabalho de ordem mais subtil, não visível, isto é, preparo-me. Mas será na expiração que o realizo. Por isso, neste outro sentido da palavra inspiração, sinto que no trabalho com as letras é, claramente, mais um processo de expiração do que inspiração.

FB: Comecemos por falar do alfabeto árabe: é um sujeito/objeto muito “sério”. Como é que te relacionaste com o facto de trabalhares com uma “língua sagrada”, tão importante no islão e na sua cultura? Já agora, o teu trabalho tem algo a ver com a caligrafia islâmica? E qual tem sido a receção dos muçulmanos frente a esta obra?

SD: Antes de responder diretamente a esta pergunta, gostava de fornecer mais um elemento para se perceber a razão de ter escolhido um sistema de escrita – isto é, um alfabeto – para este meu projeto. Essa razão é que existe uma fronteira muito pouco definida entre a minha expressão na área do design de comunicação e enquanto artista plástica. Tenho um gosto particular por letras. A escrita é, no fundo, um sistema gráfico, símbolos de palavras ausentes.

Quanto à nobre arte da caligrafia árabe, não tive intenção de desenvolver um trabalho caligráfico, embora seja difícil, para a maioria das pessoas, sair dessa qualificação devido ao facto de se identificarem as formas das letras. Na verdade, desconheço as noções de proporção, ritmo e geometria ligadas à arte da caligrafia. E, também, não tive intenção de compor palavras, de articular nenhum sistema de escrita, pois desconheço, igualmente e infelizmente, a escrita árabe.

Trabalhei sobre um plano mais elementar e abstrato do abǧad.Comecei a desenvolver este projeto entre 2014 e 2015 e participei, na altura, num intercâmbio internacional entre ateliers de artistas. Primeiro em Itália (Turim, 2015) e mais tarde França (Paris e Marselha, 2016).

Uma Textura de Som é um trabalho elaborado através de uma técnica que mistura acrílicos com tinta-da-china e aguarelas, usando a pintura e técnicas de calcografia. O suporte que utilizei, para a realização de cada peça, foi um bloco de folhas de papel de pintura com formato 40 cm x 40 cm, o que me pareceu na altura a dimensão ideal para o mesmo, não só pela forma quadrada como pelo simbolismo que o número quarenta tem para o islão. A portabilidade do trabalho permitiu-me viajar e expô-lo de forma fácil no referido programa de intercâmbios, promovido por diversas associações culturais9.

Nestes eventos, de open studios, passam muitos visitantes que percorrem a cidade, nesses dias, para poderem ter contato direto com os artistas nos seus espaços de trabalho. Deste conjunto de exposições resultou que cerca de 500 pessoas puderam ver e apreciar este meu trabalho. Das variadas reações, as mais espontâneas e emocionadas foram sempre de jovens de ascendência muçulmana e de pessoas que conheciam o abǧad. Tive alguns episódios curiosos durante estas mostras. Em Paris, na zona de Belleville, uma rapariga de origem marroquina parou na rua, espantada e emocionada por ver uma exposição com as letras do abǧad.

Após esta experiência, este trabalho esteve, pela primeira vez, exposto na sua totalidade no Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves (CELAS) sob o título Uma Textura de Som, em 2017. Esta instituição demonstrou desde o início um grande interesse no mesmo, e tive a valiosa contribuição por parte do professor e investigador Mostafa Zekri, que apresentou, no dia da inauguração, uma palestra de abertura sob o título: «A ciência das letras árabes: as letras entre o simbólico e o espiritual»10.

FB: Estudaste as obras do místico e esotérico islâmico Muḥyīl-Dīn Ibn ‘Arabī, sobre a simbologia místico-esotérica do abǧad? Há (outras) fontes tradicionais islâmicas que tenhas consultado para a elaboração da tua obra? O que é que mais te atraiu destes textos?

SD: Não estudei a fundo a simbologia místico-esotérica do abǧad. Li, apenas, alguns textos que faziam referência a Ibn ‘Arabī e à importância das letras árabes na espiritualidade islâmica, não as abordando, contudo, como um conjunto (isto é, como um alfabeto), antes como cada uma sendo um símbolo em si, um símbolo que evidencia um aspeto ou uma manifestação da Verdade. No entanto, e embora tenha uma atração enorme pela dimensão do pensamento ligado ao sufismo, e pela desconstrução lógica na forma de exprimir o inexprimível, prefiro o contato direto com os místicos ligados à espiritualidade islâmica e outros.

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Fig. 4

FB: O conceito de barzaḫ –aqui interpretado no seu sentido de‘intermédio’– é importante no pensamento de Ibn ‘Arabī. Refere-se a um mundo da imaginação que se encontra entre os da matéria e do espírito e que não é, contudo, o da nossa habitual imaginação. É o mundo das visões místicas. Sem necessariamente se ligar a esta dimensão, pergunto se na tua arte, num qualquer aspeto dela (mesmo técnico), alguma vez pensaste nas ideias de “intermédio” ou de “intermediário”?

SD: A palavra “intermédio” remete a meu ver para algo que evidencia a separação dos dois estados. Questiono, então: entre imaginação e intuição, intenção e realização, não poderá haver um istmo que as una? E não será, essa passagem, o reflexo de uma memória ligada aos dois planos, percebida consoante o estado de realização de cada um?

FB: Como saberás, o som da língua árabe no Alcorão (qur’ān, como é sabido, quer dizer ‘recitação’) é um aspeto fulcral do Livro Sagrado e da vida religiosa no islão. Podes então falarnos da ligação entre o som e o sagrado, neste teu trabalho?

SD: Como referi atrás, coloquei-me numa posição recetiva à “revelação” do efeito desse som, ao que pretendia de mim. O que não deixa de ser um paradoxo, pois a maneira como pronuncio o som das letras em árabe deve ser muito diferente do som do árabe clássico. O que me remete para a questão do plano das visões místicas: não continuaremos a estar muito condicionados
pelo sentido do olhar, da visão, privilegiando este em vez do escutar? Segundo as descrições sobre o Profeta Muḥammad, por vezes a revelação era recebida de forma semelhante ao estrondo do som de um sino11 e que só depois era retido o que lhe era dito.

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Fig. 5

FB: Entendes o teu trabalho como ponte entre Tradição e Contemporaneidade?

SD: No fundo interessa-me o estabelecer-se o vínculo com uma tradição unitária, de uma Realidade Única. Ora essa Realidade é Eterna, e a Sua essência permanece desconhecida, ao passo que a forma cultural de como eu posso expressar o meu trabalho não é de todo absoluta, até porque se manifesta num sítio e num momento bem definidos, o momento presente que eu entendo como ponte entre passado e futuro.

Esta minha perspetiva sobre o tempo prende-se de algum modo com a chamada arte contemporânea. Em termos de ciclos artísticos, sabemos que o conceito de Contemporâneo aparece depois do conceito de Moderno, este sendo entendido como rutura com o passado, e de Pós-moderno, que por sua vez reflete sobre o Moderno. Assim, o Contemporâneo, referese a uma tendência artística que privilegia o presente com respeito ao passado e ao futuro. Aqui se insere a minha reflexão sobre a importância do presente no (meu) trabalho artístico, porque se eu caísse na repetição de modelos formais, espaciais e/ou temporais da expressão, diferentes dos meus, estaria então a cair num sistema fechado que não me permitiria abrir-me à tradição unitária que referia antes, e que eu procuro na dimensão-ponte do presente.

FB: Parece que uma das intenções que motivam e que de alguma forma conotam este teu trabalho é a de redescobrir o legado islâmico em Portugal. O que é que mais te impressiona ou te estimula neste legado?

SD: Dentro do caminho que tenho percorrido como artista, este trabalho destaca-se porque, sendo ele um reflexo da herança luso-árabe em Portugal, pretendo torná-lo num projeto pedagógico itinerante, tanto em Portugal, como a nível internacional.

Falando em termos históricos, a permanência administrativa islâmica no território de Portugal corresponde a cerca de quinhentos anos –isto é, meio milénio–, o que são muitos anos12. Na zona de Lisboa, de onde sou natural e onde vivo, os vestígios materiais dessa permanência não são imediatamente fáceis de notar.

Lisboa tem uma aura de impermanência, sendo uma zona portuária e devastada por sucessivos terramotos. Contudo, pode ser igualmente vista na perspetiva onde o encontro intercultural foi e continua a ser muito grande. Ao estudar a história da cidade, mais propriamente relacionada com as artes e ofícios, é impressionante a quantidade de nomes ligados a profissões, a técnicas, a materiais e a ferramentas, a vestuário, a vocábulos de origem árabe ainda existentes (algibeira, alfarge, adufe, alfaiate, etc.) e muitos outros que caíram em desuso. Então, a influência linguística parece-me ser o elemento forte que perdurou nesta zona.

Seria importante desfazer a noção de História que tendencialmente se tem, de esta ter sido feita por etapas e fronteiras, e passar a dar maior valor à interação, intercomunicação e interculturalidade entre os povos de diferentes credos e culturas que se cruzaram em determinado lugar formando uma nova dinâmica e diversidade cultural. Resultado disso são, no contexto das
artes, e ultrapassando o contexto religioso, os exemplos das artes moçárabe e mudéjar.

Por fim, lutar contra a tendência de se perpetuar uma noção não dinâmica da História e da cultura, que nos nossos dias se traduz em situações cada vez mais frequentes e de grande difusão mediática, e que me parecem grandes rasteiras culturais, tal como consta da continuação da comemoração de tomadas de cidades, etc., e os vários festivais a estas associados.

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Fig. 6

FB: O teu atelier de arte, design, pintura e gravura encontra-se numa zona histórica de Lisboa, no limiar sul-oriental da Baixa, perto das antigas zonas árabes e islâmicas de Alfama, Mouraria e do Castelo. Podes falar-nos de se, e como, o sítio onde realizas o(s) teu(s) trabalho(s) está presente nele(s) e/ou na tua experiência de artista?

SD: O meu atelier está localizado, mais propriamente, no antigo e grande arrabalde da medina da época islâmica. Ao lado da porta maior da cidade, a Porta do Ferro. Junto encontra-se a atual Igreja de Santo António de Lisboa13, local indicado como o sítio onde este teria nascido. É um quarteirão cheio de história. Se Ibn ‘Arabī tivesse passado por Lisboa, provavelmente teria entrado por esta porta que o levaria ao polo central da medina, a mesquita.

O espaço que hoje é o meu atelier, segundo alguns registos14, faria parte do hospital medieval dos Palmeiros. Um hospital ligado aos peregrinos que iam à Terra Santa. Hoje faz parte do quarteirão ligado à Igreja de Santa Maria Madalena.

É uma grande estrutura de parede em pedra anterior ao grande terramoto de 1755 e está integrada no edifício pombalino, mas, pela qualidade do trabalho da pedra e pela sua orientação não é paralela á parede da fachada do edifício.

Em termos formais tomei consciência da influência do espaço no meu trabalho quando um dia coloquei uma pintura que tinha feito pendurada nesta referida parede e de repente me apercebi que, na realidade, tinham semelhantes cores e texturas.

Acho que os espaços comunicam connosco, só temos de estar mais atentos, escutá-los…

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Fig. 7. Sara Domingos no seu atelier em Lisboa

FB: Como colocas, ou como se enquadra, este trabalho na sucessão de teus trabalhos anteriores e presentes? Dito de outra forma, podes falar-nos deste de Uma Textura de Som no contexto do percurso que a tua obra de artista até agora tem feito?

SD: A minha expressão artística é marcada por uma tendência abstrata. Trabalho num plano pictórico onde vou desconstruindo formas, limites, reduzindo um tema ao conjunto das suas características essenciais.

Coloco sempre o meu trabalho entre duas dinâmicas. A da minha expressão pessoal, e o do retorno (ou não), da reação que causa a quem o observa. O curioso é que a tendência normal por parte de quem observa é encontrar referências figurativas. Muitas vezes, acabo por ser eu influenciada por elementos que não “via” e, depois de ser chamada à atenção para eles, tornase-
me difícil o processo inverso de deixar de os ver.

Toda a arte, na sua essência, parece-me ser de tendência abstrata devido à reação que a sua impressão causa a quem a observa, independentemente, do maior ou menor grau de figuração.

Neste trabalho, em particular, mantive a representação da forma (ou a ideia da forma) de cada uma das letras como detalhe não omitido, propositadamente para que cada uma delas fosse reconhecida. Fazendo, com isso, com que o sentido nos obrigasse a pensar, a focar no som, independentemente de se saber ou não pronunciar o mesmo. A baixa gama cromática poderá ser outro elemento que reforce igualmente esse sentido.

A abstração, aqui, será sobre um plano normalmente mais esquecido, o do escutar. É, assim, uma abstração visual de um som. Uma expressão visual sobre o som do espanto da origem da Criação.

Bibliografia

“Base de Dados de Património Islâmico em Portugal”, http://patrimonioislamico.ulusofona.pt (consultado a 17 de outubro de 2017).
KHAN Muhammad Muhsin [trad.], The Translation of the Meanings of Sahih Al-Bukhari: Arabic-English, Riyadh, Darussalam, 1997.
LLANSOL Maria Gabriela, Lisboaleipzig, vol. 1, Lisboa, Rolim, 1994.
LOPO Rui, «Pintura e Gravura», https://sara-domingos.wixsite.com/saradomingos/artwork ([texto de novembro de 2012] consultado a 17 de outubro de 2017).
“Sara Domingos Visual Artist”, https://sara-domingos.wixsite.com/saradomingos/bio-cv (consultado a 17 de outubro de 2017).
“Shama’il Muhammadiyah – The Noble Features of Rasoolullah”, https://sunnah.com/shamail/ 1 (consultado a 17 de outubro de 2017).
SIDARUS Adel, «Arabismo e traduções árabes em meios luso-moçárabes (Breves apontamentos)», Collectanea Christiana Orientalia, n.º 2, 2005, 207-223.
SILVA Augusto Vieira da, As Muralhas da Ribeira de Lisboa, vol. 1, Lisboa, Publicações Culturais da Câmara Municipal de Lisboa, 1940.
SOUSA Rocha de, «Sara Domingos. Desconstruções da tecnologia», Jornal de Letras, 26 de dezembro de 2012 a 5 de janeiro de 2013, p. 22.

1. O presente trabalho foi pensado e produzido no contexto do projeto «Património Islâmico em Portugal», sediado na Área de
Ciência das Religiões da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias (ULHT-COFAC) de Lisboa (ver o sítio internet
http://patrimonioislamico.ulusofona.pt, consultado a 17 de outubro de 2017). O projeto envolve várias entidades e instituições
parceiras, entre as quais o Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa (CFUL) e a empresa MUSE, esta sendo ativa, juntamente com a ULHT-COFAC, na ação cultural denominada «Lus-Andaluz», que envolve atividades sobre arte contemporânea e cultura islâmica. O agradecimento do autor da entrevista vai: à Sara Domingos, pela gentileza, a disponibilidade e a colaboração; ao Pedro Vista, pela leitura e as sugestões; ao professor Pablo Beneito Arias, pelo convite.

2. A escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol (1931-2008) foi entre as personalidades da cultura lusa do século XX que mais
refletiram sobre o pensamento de Ibn ‘Arabī, como é o caso da passagemacima citada (Llansol, 1994, p. 113).
3. Citamos do sítio internet da artista: «Sara Domingos nasceu em Lisboa em 1973. Trabalha em atelier próprio em Lisboa e
desenvolve um trabalho artístico multidisciplinar, que toca subtilmente a linha de fronteira entre as artes plásticas e as artes gráficas, tem participado em mostras individuais, coletivas e está representado em coleções privadas» (ver https://sara-domingos.wixsite.com/ saradomingos/bio-cv, consultado a 17/10/2017).
4. A exposição intitulada Era Belo como a Lua de Sara Domingos decorreu na Galeria Prova de Artista em 2012, na cidade de Lisboa.
5. Por exemplo, vejam-se as seguintes ‘narrações’ tradicionais (aḥādīt): Šamā’il Muḥammadiyya, compilação por al Tirmidī,livro 1, aḥādīt 7, 9. Para uma versão original em árabe e uma tradução para inglês destes aḥādīt, veja-se a página web https://sunnah.com/ shamail/1 (consultada a 17 /10/ 2017).

6. «Uma abstração visual do som» foi o título dado a um evento, dedicado ao trabalho Uma Textura de Som de Sara Domingos, e realizado no Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves (CELAS) no dia 30 de setembro de 2017. Agradecemos à Sara Domingos por nos ter facultado esta informação assim como outras, que foram úteis para a elaboração do presente trabalho.

7. Citámos a conferência de Davide Trasparente, intitulada «Arte, espírito e o nó do nosso tempo», proferida a 20 de março de 2017 no âmbito do Colóquio Internacional Vita Contemplativa – Práticas Contemplativas e Cultura Contemporânea, decorrido na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e organizado pelo Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, em colaboração com o Círculo do Entre-Ser. Agradecemos ao Davide Trasparente por nos ter ajudado a recuperar esta citação.

8. Siglas utilizadas: FB = Fabrizio Boscaglia (entrevistador). SD = Sara Domingos (artista).

9. As associações culturais às quais a Sara Domingos se refere são as seguintes: Associação Castelo d’If (sediada em Lisboa, em
Portugal), Associação Cultural Acca (Turim, Itália), Associação Cultural Ateliers d’Artistes de Belleville (Paris, França), Associação Cultural Château de Servières (Marselha, França). [Nota do entrevistador].
10. A exposição foi inaugurada a 17 de junho de 2017 e decorreu até ao dia 30 de setembro do mesmo ano. [Nota do entrevistador].

11. A Sara Domingos refere-se com toda a probabilidade a um ḥadītconforme o qual o Profeta do islão, Muḥammad, disse à sua esposa ‘Ā’iša que por vezes a inspiração divina lhe era revelada como o toque de um sino (cf. Ṣaḥīḥal-Buḫārī, livro 1, ḥadīt 2), (cf. Khan, 1997, p. 46). [Nota do entrevistador].

12. A artista está aqui a referir-se aos tempos de governo islâmica (árabe antes, e depois berbere) no hodierno território português, outrora chamado, em árabe, Ġarb al-Andalus (‘ocidente do al-Andalus’; c. 711-1249). A ativa presença de muçulmanos no entretanto nascido Reino de Portugal (1139-1910)durou,contudo, mais. Durante as chamadas Idade Média e Renascença, os muçulmanos viveram em Portugal pelo menos até 1496, ano do decreto de expulsão de judeus e muçulmanos, assinado por D. Manuel I, Rei de Portugal. [Nota do entrevistador].

13. O padre católico conhecido pelo nome de Santo António de Lisboa (m. 1231) é uma importante figura do pensamento português, da cultura popular portuguesa e da religiosidade cristã católica, tendo pertencido à ordem religiosa dos Franciscanos durante o tempo de São Francisco de Assis. Existem estudos que referem uma sua ascendência familiar moçárabe (cf. Sidarus, 2005, p. 209). [Nota do entrevistador].

14. Entre outras referências, veja-se o livro As Muralhas da Ribeira de Lisboa, de Augusto Vieira da Silva (Silva, 1940, p. 165). [Nota do entrevistador].

 

 

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